Cura ou remissão do câncer? Entenda a diferença crucial

Médico especialista em laboratório analisando amostras de sangue sob o microscópio.

A batalha contra o câncer é marcada por superação, resiliência e, acima de tudo, pela evolução da medicina. Recentemente, a história do publicitário Paulo Peregrino, de 61 anos, emocionou o Brasil. Após 13 anos lutando contra a doença e prestes a ingressar nos cuidados paliativos, ele alcançou a remissão completa de um linfoma em apenas trinta dias. O milagre da ciência ocorreu graças a um tratamento inovador totalmente brasileiro, realizado na rede pública de saúde.

Contudo, diante de um resultado tão surpreendente, surge uma dúvida muito comum, especialmente entre o público maduro que acompanha de perto as notícias de saúde: afinal, qual é a real diferença entre a cura do câncer e a remissão da doença? Embora pareçam sinônimos, esses conceitos representam etapas muito distintas na jornada do paciente.

Cura vs. Remissão: O que diz a ciência?

Para esclarecer esses termos, especialistas explicam que o diagnóstico de cura exige tempo e extrema cautela por parte dos oncologistas e hematologistas.

  • O que é a Remissão? É o estado em que as células tumorais não são mais detectadas por nenhum exame clínico ou de imagem (como o PET-CT ou testes de sangue que buscam o DNA do câncer). Isso significa que a doença pode ter sido totalmente eliminada ou reduzida a um nível tão microscópico que os aparelhos atuais não conseguem registrar. Por essa razão, o paciente precisa continuar sob monitoramento constante.
  • O que é a Cura? A cura só é declarada oficialmente quando o paciente permanece em remissão completa, sem qualquer sinal do tumor, por um período mínimo de cinco anos. Antes desse marco temporal, a medicina adota o termo “remissão” para garantir a segurança do protocolo de acompanhamento.

A rotina de cuidados após a remissão

Alcançar a remissão é um motivo de grande celebração, mas não significa o fim do acompanhamento médico. O hematologista Vanderson Rocha, professor da Faculdade de Medicina da USP, detalha que a rotina de exames deve ser rigorosa e espaçada gradualmente:

Frequência dos exames de monitoramento

  • Fase inicial: Consultas e exames a cada três ou quatro meses.
  • Fase intermediária: Avaliações a cada seis meses.
  • Fase de manutenção: Acompanhamento anual após a estabilização do quadro.

A volta à rotina e cuidados com a imunidade

O retorno às atividades cotidianas deve ser gradual e moderado. De modo geral, três meses após a remissão, o paciente pode retomar sua rotina normal, mantendo atenção redobrada contra infecções. No caso de pacientes que passaram por transplante de medula óssea, esse prazo de transição e cuidados mais restritos costuma se estender por cerca de seis meses.

CAR-T Cell: A terapia revolucionária que reconstrói a esperança

O tratamento que mudou a vida de Paulo Peregrino e de outros pacientes no Brasil é o CAR-T Cell. Trata-se de uma terapia celular avançada que utiliza as próprias células de defesa do paciente (os linfócitos T), que são coletadas, modificadas geneticamente em laboratório para combater especificamente o tumor, e depois reinjetadas no organismo.

Até o momento, 14 pacientes foram tratados com essa técnica no país por meio de um estudo financiado por recursos públicos da Fapesp e do CNPq. O projeto é desenvolvido pela USP em parceria com o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto. Todos os participantes apresentaram uma redução de pelo menos 60% de seus tumores.

Embora nenhum dos pacientes brasileiros seja formalmente considerado “curado” ainda — já que o primeiro tratamento ocorreu em 2019, há menos de cinco anos —, os dados globais são altamente promissores. Nos Estados Unidos, onde a técnica começou a ser aplicada há uma década, mais de 50% dos pacientes tratados estão completamente curados, mesmo aqueles que já não respondiam a nenhuma outra terapia convencional.

Histórias reais de quem venceu o impossível

A trajetória de quem passa pelo processo é marcada por gratidão e consciência científica. O educador físico Bruno Marques Giovanni enfrentou uma leucemia agressiva por três anos antes de se submeter ao CAR-T Cell. Hoje, há um ano e meio de volta à sua rotina ativa, ele realiza exames a cada três meses e encara o processo com otimismo: “Sei que sou um objeto de estudo, mas sou uma pessoa que está superbem. Só agradeço a toda a equipe”.

Já Paulo Peregrino, que registrou sua jornada em uma autobiografia intitulada “A Vida pelo Copo D’água”, resume o sentimento que une a maturidade e o desejo de viver: “A vitória não é só minha. É da fé, da ciência e da energia positiva das pessoas”.

O futuro do tratamento pelo SUS

Atualmente, o CAR-T Cell só está disponível comercialmente na rede privada brasileira a um custo estimado de R$ 2 milhões por pessoa. Contudo, o cenário está prestes a mudar.

Com a instalação de duas fábricas públicas no estado de São Paulo, a expectativa é iniciar um estudo clínico com 75 pacientes financiados pelo Ministério da Saúde, com um custo de R$ 60 milhões — gerando uma economia de R$ 140 milhões aos cofres públicos em comparação aos valores privados. A Anvisa tem dado prioridade máxima à análise do projeto para que essa tecnologia inovadora se torne, em breve, uma realidade acessível a todos os brasileiros através do SUS.

Fonte: G1.

Matéria original no G1

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