O cuidado com a saúde mental ganha um destaque ainda mais profundo quando olhamos para quem dedica a vida inteira a cuidar do outro. No dia a dia de famílias com crianças e adolescentes neurodivergentes, como aqueles que estão no espectro autista, a rotina de terapias, consultas e adaptações constantes costuma recair sobre uma única figura: a mãe. Pensando em combater o esgotamento extremo dessas mulheres, o Centro Especializado em Reabilitação da Barra, localizado em Salvador (BA), desenvolveu uma iniciativa essencial de acolhimento.
O projeto surge em um momento oportuno de conscientização sobre a valorização da vida e a prevenção ao suicídio. Ele joga luz sobre a necessidade urgente de oferecer suporte psicológico e social para as chamadas mães atípicas, que frequentemente anulam suas próprias vidas e necessidades em prol do desenvolvimento de seus filhos.
O Peso Silencioso da Maternidade Atípica
A jornada de acompanhar uma criança neurodivergente é repleta de desafios diários. A psicóloga Josenilda Liberato explica que esse processo exige uma adaptação contínua e lida diretamente com expectativas e frustrações. No entanto, a sociedade muitas vezes enxerga essa mãe apenas sob o papel de cuidadora, esquecendo-se de que ali existe uma mulher com necessidades físicas, emocionais e sociais que precisam ser atendidas.
Além da sobrecarga natural da rotina de tratamentos, essas mulheres frequentemente enfrentam a solidão do abandono familiar. Segundo a psicóloga, há um padrão doloroso que se repete em muitos lares brasileiros após a confirmação da neurodivergência de uma criança.
“Eu costumo dizer que, quando o diagnóstico entra por uma porta, a maioria dos maridos, os homens, sai por outra. E essas mulheres acabam ficando sozinhas, sentindo-se sobrecarregadas, porque entendem e interiorizam que precisam dar conta de tudo”, alerta Josenilda.
Projeto Afago: Um Refúgio para Quem Cuida
Para evitar que essa sobrecarga se transforme em um quadro grave de depressão ou exaustão extrema (burnout), o suporte precisa ser estruturado. Foi com esse objetivo que o Centro Especializado em Reabilitação da Barra criou o Projeto Afago. A iniciativa oferece acolhimento e suporte emocional especializado para pais e responsáveis pelas crianças e adolescentes atendidos na unidade de saúde baiana.
Entre a correria de marcar consultas médicas, administrar medicações, mediar crises comportamentais e lutar pela garantia de direitos básicos de acessibilidade e educação, o tempo dessas mães para cuidar de si mesmas simplesmente desaparece. O projeto atua justamente devolvendo a elas esse espaço de escuta ativa.
A artesã Jamile Paixão, mãe do pequeno Henrique, encontrou no Projeto Afago o alento que tanto buscava para seguir em frente. Para ela, o maior diferencial do grupo é a oportunidade de se expressar sem julgamentos.
“Porque é o momento em que você está ali com outras mães que também estão vulneráveis, também estão cansadas. E você pode compartilhar a rotina, conversar e desabafar sem o medo do julgamento”, relata a artesã.
A Importância de Identificar o Esgotamento Materno
Garantir que as mães atípicas tenham acesso a suporte psicológico não é apenas uma demonstração de empatia e humanidade, mas também uma estratégia fundamental para o sucesso do próprio tratamento da criança. Afinal, para cuidar bem de alguém, é indispensável estar bem.
Familiares, amigos e redes de apoio — o que inclui avós, tios e vizinhos — devem ficar atentos aos principais sinais de esgotamento emocional nessas cuidadoras. Os sintomas mais comuns de alerta incluem:
- Cansaço físico e mental extremo: Uma sensação de fadiga constante que não melhora mesmo após períodos de sono ou descanso.
- Isolamento social: Afastamento de amigos, familiares e de atividades de lazer que antes traziam prazer.
- Sentimento de culpa e cobrança excessiva: A crença constante de que não está fazendo o suficiente pelo desenvolvimento do filho.
- Alterações de humor e ansiedade: Crises de choro fáceis, irritabilidade constante e preocupação excessiva com o futuro da criança.
Iniciativas como o Projeto Afago mostram que, ao estender a mão para quem cuida, toda a estrutura familiar é fortalecida, permitindo que tanto a mãe quanto a criança neurodivergente tenham uma melhor qualidade de vida e um desenvolvimento mais saudável.
Fonte: Agência Brasil.