Saúde mental: projeto apoia mães atípicas em Salvador

Mulher de meia-idade abraçando outra mulher de forma acolhedora em um ambiente de apoio emocional.

No mês dedicado à conscientização sobre a prevenção ao suicídio e à valorização da vida — o Setembro Amarelo —, uma iniciativa em Salvador, Bahia, joga luz sobre uma realidade frequentemente invisibilizada: a saúde mental das mães atípicas. O Centro Especializado em Reabilitação da Barra lançou um olhar atento e humanizado sobre o esgotamento extremo de mulheres que dedicam suas vidas a acompanhar a rotina de tratamento e desenvolvimento de crianças e adolescentes neurodivergentes.

O peso invisível do cuidado solo e a sobrecarga materna

A jornada de cuidar de uma criança com transtorno do espectro autista (TEA) ou outras neurodivergências é marcada por amor, mas também por um processo contínuo de adaptação, burocracias e intensas expectativas. A psicóloga Josenilda Liberato, que atua diretamente na área, explica que a sociedade costuma enxergar essas mulheres apenas sob o prisma do papel de cuidadoras. Nesse processo, suas próprias necessidades físicas, biológicas e emocionais acabam completamente negligenciadas.

A solidão do abandono paterno

Um dos pontos mais dolorosos e reais destacados pela psicóloga é a solidão enfrentada por essas mães no âmbito familiar. “Eu costumo dizer que quando o diagnóstico entra por uma porta, a maioria dos maridos, os homens, saem por outra”, revela Josenilda. Com a partida dos parceiros, essas mulheres se veem sozinhas, sobrecarregadas por uma cobrança interna e externa de que precisam “dar conta de tudo”, o que pavimenta o caminho para a exaustão física e mental severa.

O apagamento da identidade da mulher

Entre agendar consultas médicas, monitorar crises, administrar terapias e lutar pela garantia de direitos básicos de seus filhos, o tempo para si simplesmente deixa de existir. A mulher que existia antes do diagnóstico é, muitas vezes, silenciada pela rotina exaustiva do cuidado.

Projeto Afago: Um oásis de escuta e acolhimento em Salvador

Para evitar que esse esgotamento atinja um ponto de não retorno, o acolhimento psicológico precisa ser estruturado. Foi com esse propósito que o Centro Especializado em Reabilitação da Barra desenvolveu o Projeto Afago. A iniciativa oferece suporte emocional especializado para pais e responsáveis de crianças e adolescentes neurodivergentes atendidos pela instituição.

Compartilhando dores sem julgamentos

O principal diferencial do projeto é proporcionar um espaço seguro de escuta. A artesã Jamile Paixão, mãe do pequeno Henrique, relata ter encontrado no projeto o alento que tanto buscava. Para ela, o espaço permite a troca de experiências com outras mulheres que vivem dilemas semelhantes:

  • Espaço de vulnerabilidade: Um ambiente acolhedor onde é permitido chorar e demonstrar fraqueza sem culpa.
  • Troca de rotinas: Compartilhamento de vivências e estratégias práticas para lidar com o dia a dia.
  • Ausência de julgamentos: A certeza de que o desabafo sincero não será interpretado como falta de amor pelo filho.

Cuidar de quem cuida: Um fator crucial para o tratamento da criança

Garantir que a mãe atípica receba assistência psicológica adequada não é apenas um ato de solidariedade humana ou empatia social. Trata-se de uma estratégia terapêutica indispensável para o sucesso do próprio desenvolvimento da criança neurodivergente. Uma cuidadora mentalmente saudável e fortalecida tem muito mais recursos emocionais para mediar as crises e estimular o progresso de seu filho.

Para o público maduro, que muitas vezes atua como rede de apoio familiar (sejam avós, tias ou vizinhas), compreender essa dinâmica é fundamental para estender a mão de forma prática e acolhedora, ajudando a aliviar o fardo dessas mães.

Fonte: Agência Brasil.

Matéria original na Agência Brasil

You may also like these

No Related Post