Brasileiro vence câncer terminal com terapia revolucionária

Homem de 61 anos sorrindo ao lado de seu médico em um ambiente hospitalar, celebrando a recuperação de sua saúde.

Aos 61 anos, o publicitário Paulo Peregrino vivenciou um verdadeiro marco na medicina moderna. Após travar uma batalha de 13 anos contra o câncer e estar prestes a ingressar na ala de cuidados paliativos — quando não há mais perspectiva de cura —, ele alcançou a remissão total de um linfoma agressivo em apenas 30 dias. O responsável por essa reviravolta histórica é um tratamento revolucionário chamado CAR-T Cell, realizado de forma experimental pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O caso de Paulo representa a fusão perfeita entre a determinação humana e a vanguarda científica. “A vitória não é só minha. É da fé, da ciência e da energia positiva das pessoas”, celebrou o paciente, que agora planeja lançar uma autobiografia para compartilhar sua trajetória de superação.

Como funciona a revolucionária terapia CAR-T Cell?

Diferente das abordagens tradicionais, como a quimioterapia, a terapia genética CAR-T Cell utiliza as próprias células de defesa do paciente para combater o tumor. O processo é altamente personalizado e envolve as seguintes etapas:

  • Coleta dos linfócitos: As células de defesa do tipo T (os “soldados” do sistema imunológico) são retiradas do sangue do paciente.
  • Modificação genética: Em laboratório, essas células são reprogramadas geneticamente para identificar e atacar especificamente as proteínas do câncer.
  • Multiplicação: Os linfócitos modificados são multiplicados aos milhões.
  • Infusão: As novas células superpotentes são devolvidas ao organismo do paciente, onde passam a circular, localizar e destruir as células cancerígenas sem afetar os tecidos saudáveis.

Atualmente, o método foca em três tipos específicos de tumores no sangue: a leucemia linfoblástica B, o linfoma não Hodgkin de células B e o mieloma múltiplo (este último ainda não disponível para aplicação no Brasil).

A jornada de 13 anos de resiliência de Paulo

A história de Paulo com o câncer começou muito antes do tratamento revolucionário. Sua caminhada foi marcada por altos e baixos, que ele enfrentou com bom humor e criatividade:

Esporte durante a quimioterapia (2018)

Ao iniciar o tratamento para o seu primeiro linfoma, Paulo não abandonou sua paixão pelo vôlei de praia. Ele chegou a disputar torneios nas areias do Rio de Janeiro enquanto passava pelas sessões de quimioterapia, surpreendendo a equipe médica pelo seu vigor físico.

O grupo “TMO Juntos” na pandemia (2020)

Isolado em um quarto de hospital após um transplante de medula ósea (TMO) em plena pandemia de Covid-19, Paulo encontrou uma forma de criar comunidade. Ele reuniu os contatos dos pacientes dos quartos vizinhos e criou um grupo de apoio no WhatsApp chamado “TMO Juntos”, onde compartilhavam músicas e palavras de incentivo. No mesmo período, lançou o livro “Brizola e eu”, higienizando cada exemplar com álcool para poder autografá-los na internação.

Cegueira temporária (2022)

Após contrair Covid-19 durante uma internação por baixa de plaquetas, uma tosse severa provocou uma hemorragia interna em ambos os olhos. Paulo enfrentou três meses de cegueira temporária até encontrar um especialista que realizasse a cirurgia corretiva necessária.

A ciência brasileira e o desafio do custo

A tecnologia CAR-T Cell é extremamente complexa e, na rede privada brasileira, chega a custar cerca de R$ 2 milhões por paciente. No entanto, o Brasil desponta como pioneiro na América Latina ao desenvolver uma versão nacional e pública dessa terapia.

O protocolo foi conduzido pela Universidade de São Paulo (USP), em parceria com o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto, com fomento da Fapesp e do CNPq. Sob a coordenação dos médicos Dr. Vanderson Rocha e Dr. Dimas Covas, o programa já tratou 14 pacientes. Desse grupo, 69% obtiveram remissão completa em apenas um mês, e todos os participantes apresentaram uma redução de pelo menos 60% dos tumores.

Para democratizar o acesso, há um projeto-piloto em análise pela Anvisa para tratar 75 novos pacientes a partir do segundo semestre. O estudo clínico terá um custo de R$ 60 milhões financiados pelo Ministério da Saúde, gerando uma economia estimada de R$ 140 milhões aos cofres públicos em comparação aos valores do mercado privado.

Outros rostos da esperança

Além de Paulo, outros pacientes compartilham do mesmo sentimento de gratidão. É o caso do educador físico Bruno Marques Giovanni, que tratou uma leucemia agressiva por meio do mesmo estudo há um ano e meio. Bruno realiza exames de acompanhamento a cada três meses e se orgulha de colaborar com a ciência. A cura definitiva na oncologia, contudo, só é declarada após cinco anos sem qualquer sinal da doença.

Enquanto aguarda a “festa da cura”, marcada simbolicamente para novembro, Paulo Peregrino segue em acompanhamento médico em São Paulo, focado em sua nova missão: “Só quero que as informações e o conhecimento adquirido com meu caso possam servir a outros pacientes no futuro.”

Fonte: G1.

Matéria original no G1

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