O uso de relógios inteligentes e outros dispositivos que monitoram batimentos cardíacos, passos e o sono virou rotina para muitos brasileiros, especialmente entre aqueles que buscam envelhecer com saúde. No entanto, essa dependência de aparelhos para mediar nossa qualidade de vida acende um alerta filosófico: será que estamos terceirizando nosso bem-estar para as máquinas?
O filósofo Nolen Gertz, professor da Universidade de Twente, na Holanda, propõe uma reflexão profunda sobre esse cenário. Segundo o especialista, a sociedade contemporânea corre o risco de transformar a tecnologia em uma espécie de divindade moderna. Ele aponta que esses recursos não são neutros; eles alteram nossa percepção do próprio corpo e mudam nossa relação ética com o mundo.
Os números mostram que o apego a esses dispositivos é gigantesco. Apenas em 2023, o mercado de aparelhos vestíveis (os chamados wearables) movimentou cerca de 20 bilhões de dólares globalmente. Uma pesquisa conduzida pela consultoria PwC revela que 70% das pessoas esperam que esses aparelhos ajudem a prolongar a vida, enquanto 60% buscam auxílio para controlar o peso. Além disso, 60% dos entrevistados gostam da ideia de fones de ouvido que escolhem músicas com base no humor do usuário.
A busca pela perfeição e o medo de envelhecer
Gertz traça um paralelo com as ideias do filósofo Friedrich Nietzsche sobre a perda de espaço da religião no século XIX. Para o professor holandês, hoje a inteligência artificial assumiu esse papel de salvadora, prometendo curar a velhice e a mortalidade como se o corpo humano fosse apenas uma máquina que precisa de peças novas.
Essa mentalidade alimenta o transhumanismo, movimento que defende o uso de intervenções genéticas, chips e remédios modernos para superar as limitações biológicas da humanidade. Para os defensores dessa corrente, o envelhecimento, o declínio cognitivo e as doenças são falhas da natureza que a engenharia tecnológica deve corrigir a todo custo.
O grande perigo dessa visão, conforme alerta o filósofo, é que passamos a enxergar as fases naturais da existência humana apenas como defeitos a serem consertados. Ao tratar a tecnologia como a única saída para os desafios do envelhecimento, corremos o risco de transformar a própria vida em um problema matemático a ser resolvido.
Fonte: G1.
Matéria original na Agência Brasil
Foto: G1